
Quem me conhece sabe: falar do meu pai nunca foi tarefa fácil. Mais difícil que isso, era aceitar diariamente minha relação conturbada com o velho. Sendo assim, em todo mês de agosto eu saía por aí questionando comercial de dia dos pais mais do que padre em tempo de inquisição. Achava tudo aquilo uma besteira, achava que ficava longe da realidade. Até que fui eu quem ficou longe. E, por incrível que pareça, aquela realidade questionável ficou perto.
Meu pai viajou por dois dias e sem notícias dele uma aflição tomou conta do meu coração. Vê-lo entrando pela porta de casa com a cara mais deslavada possível e ter a vontade de abraça-lo até que ele tirasse os meus pés do chão. Cá pra nós, finalmente tinha acontecido: a gente se enxergou. Ele como pai, eu como filha. Uma constatação óbvia, mas totalmente digna dos antigos comerciais mentirosos. Totalmente real.
E assim, de repente,como essas coisas que acontecem quando a gente tá vendo Faustão no domingo, eu vi o homem engraçadinho que eu meu pai é. Vi o jeito como ele insiste em perguntar 500 vezes se eu botei o casaco na bolsa; vi os trocadilhos bobinhos que ele faz só pra me fazer rir à toa; vi graça na insistência dele em ser um pai muito moderno, internético e, finalmente, presente. Pra mim, só pra mim.
Depois de ver tanta coisa, o melhor foi ver que era possível. Que esse amor não só existia, como também é maior do que eu imaginava. Que, para as tantas histórias que ouvi por aí de pais distantes, finais felizes não são exclusivos de comerciais românticos. Muito menos dos começos. E apesar de já fazer tanto tempo, a nossa começa agora.