Ele
e seu roteiro batido. Jurando que eu ia me derreter em cada linha, cair de
amores no primeiro parágrafo. Mal sabe ele que eu sei cada vírgula de cor e na
segunda frase já caia sim, mas de sono. Típico carinha que procura romances com
data de validade, um amor pra vida toda que dure no máximo um mês. Porque toda
essa coisa de relacionamento, convívio, ceder e se doar é complexo e trabalhoso
demais e nada se resolve depois de uns copos de vodka. E qualquer tentativa a
longo prazo vem lacrado com uma faixa de perigo e cheia de riscos, dores e
feridas permanentes. E é tão mais prático brincar de casal. É tão mais fácil só
receber, fazer parte dos planos de tantas garotas que ele nem lembra o nome.
Não dói, tem coisa melhor que isso? Pra ele não e por que eu perderia meu tempo
tentando reverter a solidão de alguém? A troco de que eu ia passar horas
explicando que isso é patético? Continua brincando de ser feliz, só não me tira
como idiota. Decora teu texto e diz do modo mais convincente que você conseguir
pra qualquer uma nesse mundo, mas me poupa. Só me poupa. Que essas tentativas
de ficção de amor, com esse ar de sou-tão-esperto me ofendem e eu ando sem
paciência. Acontece que a gente tem mesmo esse instinto individualista e
solitário e eu tô dando espaço ao meu. Sabe, esse impulso de se isolar, esses
reflexos de egoísmo. Tô tentando ser na vida, quem eu sou no ônibus. Já entro
em busca de um banco completamente vazio e sento na janela. Se alguém senta do
lado, fico aflita procurando outro banco vago pro resto da viagem. Sem
conversinha furada, sem relatos sobre a vida ou previsão do tempo. Sem
ambulante, se desculpando por atrapalhar o silêncio da viagem, mas já
atrapalhando e muito. Só eu, comigo, pensando em mim e sentindo o vento no
rosto. Porque nessa de tentar, já perdi tempo, amor, sonhos, crenças, paciência
e me perdi também. Então vamos combinar assim: Fale à passageira somente o
indispensável. A menos que tenha algo a dizer melhor que o seu silêncio, o que
é difícil. Agradeço.

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