domingo, 28 de outubro de 2012

Limpeza da alma

Eu bebia para vomitar aos litros. Não escondia de ninguém, mas também não ficava pedindo atenção, querendo ser a rainha da gorfada, a mestre do “passar mal” de bêbada. Esse era meu plano, simples, eficaz e primitivo: vomitaria tudo. Os outros diziam que eu bebia para esquecer, que era refúgio, que eu estava tentando esconder tudo que eu sentia atrás de garrafas e mais garrafas de álcool. Todos estúpidos, não sabiam de nada. Na verdade eu não escondia, nem fugia de nada. Estava metida até a tampa no meio dos meus fracassos e decepções, lembrando sempre de cada uma das minhas tristezas e bebendo para botá-las para fora. Esse era o plano: vomitar tudo de ruim que estava guardado dentro de mim.

Eu me esvaziava de lembranças e sentimentos para ver se conseguia viver em paz. É como uma garota que enfia uma escova de dentes no fundo da garganta para não engordar depois do almoço. Nesses dias de limpeza pesada eu mandava embora as brigas. Eu as misturava com o produto de um desejo infinito de mijar a vida inteira, expelindo uma porção de crises de ciúme que ficaram em silêncio, cinismos que escondiam explosões de humor, mas que se resumiam a caras fechadas e sorrisos amarelos.
Ficava alucinada gritando uma porção de dores e tristezas. Berrava uma porção de coisas que eu deveria ter dito e não disse, uma porção de cosias que eu ouvi e não deveria ter ouvido, uma porção de coisas que eu vi e não deveria ter visto, uma porção de coisas que eu fiz e não deveria terem sido vistas por ninguém. Eu gritava os perdidos que eu dei. Gritava as vezes que fui traída. Gritava todos os dias em que fiquei sozinha pensando absurdos. Gritava as maiores frustrações do mundo. Depois eu começava a ficar sem voz, o corpo esquentava absurdos e eu suava. Suava litros, perdia água como quem abre as portas de uma barragem. Nessas eu suava as melhores coisas. Deixava sair pelos poros todas as vezes que eu disse que foi o melhor sexo da minha vida, que era o homem da minha vida, todas as vezes que eu dizia que seria pra sempre e expurgava todas as coisas que eu queria que tivessem sido reais.

Eu suava as risadas dela e via as gotas escorrerem, suava as viagens, suava os rostos, as caretas, as coisas que me faziam rir, as piadas e ia esquecendo de tudo. Evaporava cada coisa boa e ia ficando leve, perdendo passados e memórias de coisas que nunca mais iam se repetir. Ficava muito louca, com as pupilas parecendo bueiros abertos e as lágrimas se juntavam com as gotas de suor. Eu chorava, bem de vez em quando, uma porção de coisas sérias, como imagens de parentes que eu queria trazer para a minha própria família, comidas que eu nunca mais vou comer, sensações, texturas, cores e sons que eu nunca mais vou ouvir. Eu chorava porque perder lembranças boas exige coragem e eu sempre fui covarde pras dores do coração e da alma. Lavar a alma é dolorido, cansa, dá trabalho e cobra-se caro pelo serviço.

Quando estava tudo branco, como se fosse uma morte-viva, uma inconsciência planejada, eu me esquecia de lembrar de tudo que era de antes e me convencia de que o mundo era uma incerteza infinita, exceto por uma única coisa: “preciso me apaixonar por alguém”, e me jogava na cachaça outra vez.

Nenhum comentário:

Postar um comentário