Por um tempo eu tentei convencer o mundo e a mim
mesma, que eu era a menina de decote, maquiagem carregada e risada alta na fila
do bar. Mas a verdade é que eu nunca fui. Acho incrível essa forma desapegada
de dar sequência na vida, as piadas e histórias loucas e vazias. Mas nunca fui
a menina do bar, uma pena. Pra ser sincera, eu tenho preguiça das outras
pessoas da fila, dos meninos na porta do banheiro, das músicas sem letra, das cantadas baratas.
Não conseguiria ser essa menina, embora ache um jeito bem mais simples de
encarar o mundo, porque isso tudo me dá sono, mesmo entupida de energético.
Porque antes do fim da noite eu já tô sentada, brincando com o canudo do drink,
esperando a hora de ir embora. A impressão que eu tenho é que eu tô sempre
esperando a hora de ir embora, de qualquer lugar e qualquer pessoa. A menina da
fila tá dançando com o terceiro ou quarto cara da noite. Ela é divertida e linda.
E eu queria ser assim, só que as pessoas são tão desinteressantes e
previsíveis, que eu prefiro o canudo. Levantei e fui ao banheiro, ela tava lá,
retocando a maquiagem. Enquanto eu lavava as mãos, ela arrumava o salto e
reclamou “Nossa, dói demais, né? Mulher sofre!”. Eu sorri e concordei. Doía
mesmo, quem dera fosse só o salto. Olhando nós duas pelo espelho, uma do lado
da outra, a diferença era só o modelo do vestido. Mas éramos muito mais
diferentes que isso. Ela tinha paciência com os babacas, o barman lerdo, os
amigos bêbados, as meninas de nariz em pé. Ela só queria dançar, beber e
curtir, porque a vida é complicada. Eu já entrei cansada e preferia o sofá, o
copo, o canudo e todas as coisas sem vida daquele lugar, porque as pessoas são
complicadas. Antes eu fosse a menina do bar.

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