segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Eu sempre fui metódica e inconsequente, por mais contraditório que isso pareça. Sempre soube o que devia ser feito de trás pra frente, mas sempre ignorei o mundo e todos os conselhos, porque eu queria fazer e ponto, isso me bastava. Amanhã é outro dia, não é? E ficava entregue aos meus impulsos até quando a pergunta "Tá valendo a pena?" fosse respondida por um "Não!" imediato. Muitos planos na gaveta, mas sempre procurei não jogar em ninguém o peso deles, até porque ninguém nunca mereceu ser o cara dos meus planos, vale a pena frisar. Ou, pra não ser injusta, nunca tive sintonia com os bons candidatos, tenho essa pré-disposição a quem vá me enlouquecer em pouco tempo. Minha amiga me disse que o meu tipo é gente problemática e eu não pude negar, ela tava certa. Por algum motivo que eu desconheço, trago escrito na testa essa minha preferência por relacionamentos, programas a dois e todo esse mimimi. Prefiro mesmo e isso assusta, eu sei. Mas se eu não soubesse segurar o tranco de ser só, estaria namorando por conveniência ou carência há muito tempo, mas isso ninguém vê. Ouvi muitas vezes a mesma coisa, mesmo argumento, uma fala oficial que me dá sono. Mas queria dizer dessa vez que se eu fosse mesmo pequena, indefesa e assustada, eu quem iria fugir. Nunca o fiz.

domingo, 28 de outubro de 2012

Limpeza da alma

Eu bebia para vomitar aos litros. Não escondia de ninguém, mas também não ficava pedindo atenção, querendo ser a rainha da gorfada, a mestre do “passar mal” de bêbada. Esse era meu plano, simples, eficaz e primitivo: vomitaria tudo. Os outros diziam que eu bebia para esquecer, que era refúgio, que eu estava tentando esconder tudo que eu sentia atrás de garrafas e mais garrafas de álcool. Todos estúpidos, não sabiam de nada. Na verdade eu não escondia, nem fugia de nada. Estava metida até a tampa no meio dos meus fracassos e decepções, lembrando sempre de cada uma das minhas tristezas e bebendo para botá-las para fora. Esse era o plano: vomitar tudo de ruim que estava guardado dentro de mim.

Eu me esvaziava de lembranças e sentimentos para ver se conseguia viver em paz. É como uma garota que enfia uma escova de dentes no fundo da garganta para não engordar depois do almoço. Nesses dias de limpeza pesada eu mandava embora as brigas. Eu as misturava com o produto de um desejo infinito de mijar a vida inteira, expelindo uma porção de crises de ciúme que ficaram em silêncio, cinismos que escondiam explosões de humor, mas que se resumiam a caras fechadas e sorrisos amarelos.
Ficava alucinada gritando uma porção de dores e tristezas. Berrava uma porção de coisas que eu deveria ter dito e não disse, uma porção de cosias que eu ouvi e não deveria ter ouvido, uma porção de coisas que eu vi e não deveria ter visto, uma porção de coisas que eu fiz e não deveria terem sido vistas por ninguém. Eu gritava os perdidos que eu dei. Gritava as vezes que fui traída. Gritava todos os dias em que fiquei sozinha pensando absurdos. Gritava as maiores frustrações do mundo. Depois eu começava a ficar sem voz, o corpo esquentava absurdos e eu suava. Suava litros, perdia água como quem abre as portas de uma barragem. Nessas eu suava as melhores coisas. Deixava sair pelos poros todas as vezes que eu disse que foi o melhor sexo da minha vida, que era o homem da minha vida, todas as vezes que eu dizia que seria pra sempre e expurgava todas as coisas que eu queria que tivessem sido reais.

Eu suava as risadas dela e via as gotas escorrerem, suava as viagens, suava os rostos, as caretas, as coisas que me faziam rir, as piadas e ia esquecendo de tudo. Evaporava cada coisa boa e ia ficando leve, perdendo passados e memórias de coisas que nunca mais iam se repetir. Ficava muito louca, com as pupilas parecendo bueiros abertos e as lágrimas se juntavam com as gotas de suor. Eu chorava, bem de vez em quando, uma porção de coisas sérias, como imagens de parentes que eu queria trazer para a minha própria família, comidas que eu nunca mais vou comer, sensações, texturas, cores e sons que eu nunca mais vou ouvir. Eu chorava porque perder lembranças boas exige coragem e eu sempre fui covarde pras dores do coração e da alma. Lavar a alma é dolorido, cansa, dá trabalho e cobra-se caro pelo serviço.

Quando estava tudo branco, como se fosse uma morte-viva, uma inconsciência planejada, eu me esquecia de lembrar de tudo que era de antes e me convencia de que o mundo era uma incerteza infinita, exceto por uma única coisa: “preciso me apaixonar por alguém”, e me jogava na cachaça outra vez.

domingo, 21 de outubro de 2012



A ansiedade é responsável pela maioria das vezes que a gente odeia o silêncio. Esperar a palavra de alguém, uma resposta, um simples “oi” faz o silêncio passar de pacífica sensação de paz a terrível sensação de desespero. O silêncio é como uma bandeira de rejeição que não tem cor, nem mastro, nem pano, mas está lá, nítida e imponente, para que você saiba que ele existe. Ele é uma entidade, não uma situação.

A falta de comunicação vai tão além da falta de som que é possível ficar em silêncio no lugar mais barulhento que se pode imaginar. Quantas vezes não me senti extremamente incomodada com o silêncio de alguém enquanto meus ouvidos ardiam agoniados com barulho demais. Existe a falta de som e o silêncio. E acredite: eles não são equivalentes!

Esperar algo de alguém, uma comunicação banal que seja, gera o silêncio. Estar em um lugar sem nenhum som, nenhum barulho, nenhum nada ainda pode ser extremamente ruidoso e barulhento. Os olhos falam mais alto que qualquer garganta! As palavras gritam mais que qualquer desespero e o toque, o gesto delicado, revela mais informações do que a mais longa das conversas. A expectativa de receber esse tipo de comunicação é que gera o silêncio, a falta de som, não.

O silêncio é aquela sensação estranha de quando você escreve um bilhete e, ao invés de responder, a pessoa simplesmente guarda o papel e continua fazendo o que estava fazendo antes. Ou quando você manda uma mensagem de celular que levou meia hora pra ter coragem de escrever e a resposta nunca vem. Ou até quando você vê a tela do computador mostrando o chat só com a sua frase vazia na tela branca e mais nada, nem um “fulano está digitando uma mensagem…” para te acalmar. O silêncio tira a calma de qualquer um!

Também fica essa sensação estranha quando a despedida com beijo na boca vira um abraço com uma bochecha encostando na outra, sem lábio, sem sentimento, sem quase nenhuma intimidade. Acontece quando você segura a mão de alguém e ela não segura de volta, simplesmente deixa a mão ali para você carregar. São faltas de respostas, de atitudes, que geram o silêncio.

Essa nossa necessidade de ter uma resposta, de esperar do outro uma atitude específica, faz com que a vida pareça mais injusta, menos amável, menos macia. De que adianta ter amor, dar amor, ser feliz, ser sincero se, a qualquer momento, a reciprocidade acaba e de repente o mundo não é mais tão feliz, nem tão amável, nem tão sincero. A vida parece uma brincadeira de mal gosto quando se espera de alguém uma resposta que não vem, ou vem errada, ou truncada, ou oposta.

É como se esforçar para conquistar algo que, mais dia menos dia, não vai dar em lugar algum. É o morrer na praia sonhando com a vida nova, a escalada ao cume que está sempre encoberto por nuvens e nunca revela a verdadeira vista de lá de cima. É a expectativa crua, daquela que simplesmente nasce da esperança de algo acontecer, sem planos a longo prazo, sem estratégia, só querer e precisar.

Quando se quer a resposta certa, o gesto específico, a situação exata, o tempo para de passar. A espera se torna eterna, tudo se torna chato e sem razão, como se fosse mais fácil dormir do que esperar. É o silêncio que nos deixa assim, e quem o alimenta é a ansiedade de esperar do outro exatamente o que nós oferecemos. Quando percebi isso tudo cheguei à conclusão de que o dinheiro que vai, geralmente é bem maior do que o troco que volta e, mesmo assim, o produto ainda vale a pena. Vale a pena o silêncio!

terça-feira, 25 de setembro de 2012


Sou traída pela minha repulsa a romances baratos mais uma vez. Homem barato com conversinha barata, um namoro desesperado e o amor banalizado. Traída ou salva, jogo de sorte. Meu tempo é caro demais pra tanta promoção de alma. Nada me assusta e afasta mais que isso. Quero toda distância possível de gente que se joga nos outros pra descansar, esse povo que suga a vida do outro pra tentar se sentir menos vazio. Me dá até um frio na espinha esse tipo de carência doente. Essa obsessão de não ficar só, essa necessidade que se cria e sufoca. 
Sou livre demais. Sou passarinho e só pouso quando e em quem eu quero, então não tenta me botar na gaiola, que eu morro. Não se mexe rápido demais, que eu fujo. É que gente muito fácil me espanta, não sei lidar com caminho escancarado, acho duvidoso demais quando eu já chego sendo algemada. Não nasci pra algemas, aliás. Desculpa a frieza ou a má metáfora, mas é que produto barato demais custa caro, quando te empurram muito alguma coisa, é quase certo não funcionar bem. Desculpa também minha saída pela janela, meu jeito desastrado de ficar e pior ainda de ir embora. É que ficar por ficar, é pior que qualquer desastre, então vamos pular essa parte. Que amor é sentimento e não arte e eu não sei fingir.

Ele e seu roteiro batido. Jurando que eu ia me derreter em cada linha, cair de amores no primeiro parágrafo. Mal sabe ele que eu sei cada vírgula de cor e na segunda frase já caia sim, mas de sono. Típico carinha que procura romances com data de validade, um amor pra vida toda que dure no máximo um mês. Porque toda essa coisa de relacionamento, convívio, ceder e se doar é complexo e trabalhoso demais e nada se resolve depois de uns copos de vodka. E qualquer tentativa a longo prazo vem lacrado com uma faixa de perigo e cheia de riscos, dores e feridas permanentes. E é tão mais prático brincar de casal. É tão mais fácil só receber, fazer parte dos planos de tantas garotas que ele nem lembra o nome. Não dói, tem coisa melhor que isso? Pra ele não e por que eu perderia meu tempo tentando reverter a solidão de alguém? A troco de que eu ia passar horas explicando que isso é patético? Continua brincando de ser feliz, só não me tira como idiota. Decora teu texto e diz do modo mais convincente que você conseguir pra qualquer uma nesse mundo, mas me poupa. Só me poupa. Que essas tentativas de ficção de amor, com esse ar de sou-tão-esperto me ofendem e eu ando sem paciência. Acontece que a gente tem mesmo esse instinto individualista e solitário e eu tô dando espaço ao meu. Sabe, esse impulso de se isolar, esses reflexos de egoísmo. Tô tentando ser na vida, quem eu sou no ônibus. Já entro em busca de um banco completamente vazio e sento na janela. Se alguém senta do lado, fico aflita procurando outro banco vago pro resto da viagem. Sem conversinha furada, sem relatos sobre a vida ou previsão do tempo. Sem ambulante, se desculpando por atrapalhar o silêncio da viagem, mas já atrapalhando e muito. Só eu, comigo, pensando em mim e sentindo o vento no rosto. Porque nessa de tentar, já perdi tempo, amor, sonhos, crenças, paciência e me perdi também. Então vamos combinar assim: Fale à passageira somente o indispensável. A menos que tenha algo a dizer melhor que o seu silêncio, o que é difícil. Agradeço.

domingo, 23 de setembro de 2012

In memória.


E lá se foram sete dias sem você, pequena. Em pensar que você era sempre a primeira a ler cada texto meu.  Esse você não vai. Justo esse, que é pra você.
Você deve estar aí de cima, me assistindo escrever isso aqui e me chamando de ‘arregona’ ou de ‘pau mole’.  Consigo imaginar você falando.  Consigo lembrar da sua risada. Só não consigo te ouvir. A sua ausência faz silêncio nos lugares mais barulhentos.

Otárias, biscas, putas veias. A palavra amizade tem mais sentido agora.Conversas que só tem graça se forem na hora estudar, madrugadas que só rendem aprendizado se forem na Adri (e se a prova for no dia seguinte), notas baixas que só não são tão ruins porque tá todo mundo na merda junto, trabalhos que se forem em grupo tem que ser de SEIS pessoas e se não for a gente faz ser, noites do pijama sensual que de sensual só tem o nome, cachaças que só tem graça se vierem seguidas de um ‘que isso novinha?’ pra dançarmos até o chão, aulas chatas pra caramba que só são superadas com muitos bilhetinhos e mensagens, almoços que só são bem digeridos com muito refrigerante (e celulites de brinde), desilusões amorosas que só não são tão doloridas porque é dor dividida em SEIS. É muita mulher pertubada. É muita TPM todo mês. É muito coração partido junto. O resultado disso? Um sexteto. Uma amizade pra vida toda (tenho certeza absoluta disso). Futuras cirurgiões-dentistas muito bem servidas de parceria e ombro pra chorar. (af, que deprê!) Se vai dar tudo certo eu não sei, só sei que se der errado eu to com vocês, SEMPRE!”
Esse texto me lembra que não são mais seis travesseiros, seis pratos na mesa, conta do mercado dividida por seis. Cinco rodízios de sushi e um sobá pra você. Não somos mais seis.

Faltam 17 dias pra viagem que a gente tanto sonhou. Sonhamos juntas. Contamos os dias juntas. Um sonho que a gente vai viver por você, pra você. Cada sorriso, cada brinde, cada música... você será lembrada em cada detalhe.

A família odonto 2014, hoje pode ser chamada de família graças a você. As picuinhas foram esquecidas, os grupinhos estão se desmanchando e até o clube do bolinha dos meninos está aceitando a nossa companhia. Choramos juntos a sua partida e hoje, somos uma família que tem até anjo. Fica em paz, amiga. A gente te ama. Muito. Pra sempre.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

zi.



Ele me entende, ás vezes até mais que eu. E atura minhas loucuras, minhas crises, meu peso. Atura sorrindo e me fazendo sorrir, só porque ficar do meu lado é bom, independente do meu humor. Quando eu penso em desistir, ele me carrega no colo. Quando eu acho que não posso mais aguentar e quero sumir do mundo, ele me conta uma piada e me faz sentir leve outra vez. Só ele consegue, acho que é um superpoder. Imagina se mais alguém conseguiria botar um sorriso no meu rosto, quando já tô pronta pra chorar. Quem mais consegue segurar meu mundo, sem nem fazer esforço? Só ele suporta minhas neuroses com tranquilidade, porque a gente sempre acaba rindo do quanto eu sou paranóica e criativa. Rindo do quanto a gente sabe tanto um do outro, que é quase um só. Eu queria ficar no abraço dele pra sempre, nessa sensação de proteção, meu porto seguro. Queria cuidar dos arranhões dele, antes mesmo de surgirem. Queria evitar qualquer dor que pudesse chegar até a ele, explicar pra cada pessoa nesse mundo o quanto ele é incrível e especial e fazê-las prometer que nunca vão magoá-lo. Não sei, quando a gente tá junto não existe tempo ou problemas. A gente se ama e eu morro de medo do tempo me levar pra longe da coisa mais linda que aconteceu na minha vida. 
Agora eu te pergunto, você conseguiria manter só uma amizade, com a melhor pessoa do mundo? Pois é, eu consigo. Meu melhor amigo. Meu melhor. Meu.