sábado, 24 de novembro de 2012

Cerveja, azedinho e saudade

Existem dias em que a gente tenta explicar o que está lá dentro e não sobram palavras. Existem dias em que a gente tenta expulsar o que está lá dentro e não tem jeito. Existem dias em que a gente não queria ter nada lá dentro e...não consegue!
Hoje pensei em você. Saí de casa e pensei em você o tempo inteiro. Não me concentrei em nada. Cheguei em casa e imaginei você aqui, do meu lado. Seu cheiro estava por ali, pelo menos no meu nariz. Têm vezes que o seu cheiro não quer me abandonar. Na verdade eu nem quero me libertar dele. Você ali ao meu lado. Eu com a cabeça no seu peito. Olhos fechados. Nosso corpo colado. Sua mão no meu cabelo. Minha boca no seu pescoço. Queria que fosse assim. Imaginei dessa forma: minha boca fazendo o seu pescoço de travesseiro. Minha mão fazendo a sua nuca de cobertor. E nóis dois sem prestar a menor atenção em nada, a não ser em nós mesmos. Cochichando. Não falando nada. Fazendo do silêncio o nosso melhor aliado. Fazendo do silêncio o nosso mais bonito olhar.
A noite terminou e eu vi que não adiantou nada trazê-lo para perto, mesmo em pensamento, pois você não veio.
Voltei pra casa me sentindo solitária e estranha e o dia se tornou solitário e estranho e eu abri uma latinha de cerveja. Cerveja, gelada. No verão é ótimo, desce bem, faz com que a noite não se torne tão inimiga. Então eu bebi e a cerveja foi passando pelo meu corpo inteiro e foi me dando um calor e um calor e um calor que me deu mais saudade de você.
Aí achei minha caixa de azedinhos lá no fundo armário. Meu preferido: azedinho de morango. Coloquei a mão na caixa e estava vazia. Devo ter feito alguma cara meio confusa, meio decepcionada. Então achei outra caixa: azedinho de maçã verde. Peguei 2 e saí. Mas fiquei pensando porque a caixa do meu preferido estava vazia. Detalhe: vazia e dentro do armário, dentro do armário e vazia. E me dei uma definição: me senti uma caixa vazia dentro de um armário abandonado. Uma caixa abandonada dentro de um armário vazio.

Aquela cerveja foi me causando sensações não traduzíveis, me encontrei semi-bêbada e com saudade. Não uma saudade ruim. Uma saudade doce. Doce e suave e com gosto de azedinho. Fui até o armário e vi que lá no fundo, bem atrás tinha o sobrevivente da caixa vazia. O último e abandonado azedinho preferido. Troféu da noite.

Passei a mão nele, enchi um copo de água gelada e fui para o quarto. Passei o meu dia a limpo. E pensei: não tem jeito. Eu te amo.

Vinte anos

Vinte anos é uma etapa ingrata. Você não é mais adolescente, mas também não se sente adulto. Você sabe que tem que se portar como adulto, mas não encontra a adultez em parte alguma, a não ser no futuro. Você não tem trinta, ainda não é gente grande. Mas você já deixou de ser gente pequena faz tempo.
Com vinte anos não se bate mais porta do quarto, ninguém foge mais de casa, não se esquiva de responsabilidades. Mas ainda se é perdoado com desculpas: ele (a) só tem vinte anos, é jovem!

Uma das melhores coisas da vida é a liberdade. A sensação de que você tem alguém ao lado, amigos, família, realização e...você é completamente livre! A liberdade para mim está diretamente relacionada ao espaço.

Preciso ter tempo para a minha própria solidão. Preciso de um sofá para sentar as minhas loucuras. Preciso andar de pé no chão. Preciso fingir que não ouço o telefone tocar. Preciso ficar sem falar nada nos primeiros minutos da manhã. Preciso do meu próprio silêncio e da minha própria música interna.

Ter vinte anos não quer dizer nada. Trinta. Quarenta. Quinze. Noventa. O que importa, no fundo, é quem você é quando está sozinho. Como você é quando está acompanhado. O que sobra quando a luz apaga. O que resta quando o sol acorda.

De qualquer forma, levo sempre o meu perfume. O meu caderno. Uma caneta. Batom. Lixa de unha. Minhas lembranças. Minha parte que cresceu. Meu lado que não amadureceu. De qualquer forma ninguém vai adivinhar os meus sorrisos. Eles são meus (e seus...).

segunda-feira, 19 de novembro de 2012



Ele me mudou tanto. Não consigo entender exatamente onde as mudanças começaram. Mas foram muitas. E acho que foi devagar. Se fosse rápido eu teria sentido. E talvez tivesse pisado forte no freio. Ninguém gosta de mudança, já que toda mudança implica uma perda. Quando a gente muda acaba saindo da zona de conforto. E a zona de conforto é, como o próprio nome diz, confortável, segura, boa.

Ele me deixou mais forte. A gente nunca percebe a força que tem até acontecer algo. E quando esse algo acontece, plim, surge aquela força absurda. E a gente se surpreende com as reações, pensamentos, sensações.

Ele me levou algumas pessoas. Poxa, eu lamento dizer isso, mas ninguém é eterno. E sabe aquele seu amigo muito amigo? Ele vai te deixar chateado. E sabe aquela pessoa incrível que você contava? Ela vai te decepcionar. E sabe aquela colega que almoçava todas as quartas junto com você? Ela vai passar a almoçar com outra pessoa depois que uma de vocês entrarem na faculdade. A vida é assim: traz algumas pessoas e afasta outras.

Ele me mostrou o que é um sentimento. É que nem sempre a gente sabe. Às vezes é necessário um empurrãozinho. Um beliscão. Uma queda ou um peteleco na orelha. A coisa está ali, ao seu lado, e nem sempre os seus olhos estão bem abertos para enxergar.

Ele me ensinou que os dias nem sempre são ensolarados. E que a chuva tem a sua beleza. O cinza também. E que nada é eterno. E que ninguém ganha sempre. E que esse é o grande barato de tudo.

Ele me fez ver que a beleza vai além de um salto alto, uma sombra preta, uma chapinha e unhas bem feitas. E que dinheiro não compra caráter. E que educação não está em nenhuma prateleira do supermercado.

Ele me fez acreditar que tudo passa. Que nenhuma dor é para sempre. Que nenhuma alegria dura 365 dias. Que a gente vive numa gangorra. E que o ditado “um dia é da caça, o outro do caçador” é a coisa mais verdadeira que existe.

Ele me deixou enciumada. É que todo mundo sabe quem ele é. Todo mundo já sentiu os efeitos que ele traz. Todo mundo já provou o seu sabor.

Ele, o tempo.

Ei, vem aqui, não faz assim. Por favor, me ouve. Não finge que não liga, não dá de ombros, não faz essa cara de quem não quer prestar atenção e de quem pouco se importa. Eu sei que você se importa, ou pelo menos, tenho certeza que já se importou um dia. Por que tem que ser assim? Por que as coisas não podem simplesmente ficar numa boa?

Alguém inventou essa história maluca que o amor tem que durar pra sempre. Então a gente fica naquela obrigação de ser perfeito, de fazer acontecer, de ter êxito, de não fracassar. Não consigo mais levar isso adiante, não. Eu sou um fracasso, na minha testa está escrito em letras imensas LOSER. 

Não, eu não consigo parar de lembrar como a gente foi feliz. Era tão bom gostar de você. Era tão bom ver o seu sorriso de manhã. Coisas assim, meio de filme. Mas a nossa vida é realidade pura. E sem flores. Uma das minhas maiores dores é saber que, não importa quanto tempo passe, eu nunca vou esquecer você. 

Você foi a pessoa mais importante da minha vida e com você eu aprendi muita coisa sobre o amor. Mas o amor é que nem um bebê de colo: precisa de cuidados e supervisão constante. Acho que a gente não soube cuidar bem desse bebê. Nem da gente mesmo.

Por que as pessoas se perdem? Eu sempre disse: se não for pra acrescentar alguma coisa, por favor, não bagunça a minha vida. Gosto de quem soma. E a gente somou, você somou, eu somei. Até o momento em que as brigas começaram e a gente fez questão de se diminuir.

Nosso amor teve muitos silêncios e vírgulas. Cheguei a ficar engasgada com tantas reticências. Não dava mais, não estava mais funcionando. É, às vezes as coisas não funcionam. Estragam. Se partem.

Mas só porque acabou não quer dizer que não deu certo e não foi bom. Nem sempre as coisas são eternas. Mas nem por isso deixam de ser especiais. Por favor, entenda isso. Entenda que o nosso amor deu certo. E me deixa livre para seguir. Eu prometo que te deixo livre para seguir também. Detesto histórias sem fim. Todo mundo precisa de um ponto final para poder começar um novo parágrafo. Boa sorte para nós dois. A gente merece.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Eu sempre fui metódica e inconsequente, por mais contraditório que isso pareça. Sempre soube o que devia ser feito de trás pra frente, mas sempre ignorei o mundo e todos os conselhos, porque eu queria fazer e ponto, isso me bastava. Amanhã é outro dia, não é? E ficava entregue aos meus impulsos até quando a pergunta "Tá valendo a pena?" fosse respondida por um "Não!" imediato. Muitos planos na gaveta, mas sempre procurei não jogar em ninguém o peso deles, até porque ninguém nunca mereceu ser o cara dos meus planos, vale a pena frisar. Ou, pra não ser injusta, nunca tive sintonia com os bons candidatos, tenho essa pré-disposição a quem vá me enlouquecer em pouco tempo. Minha amiga me disse que o meu tipo é gente problemática e eu não pude negar, ela tava certa. Por algum motivo que eu desconheço, trago escrito na testa essa minha preferência por relacionamentos, programas a dois e todo esse mimimi. Prefiro mesmo e isso assusta, eu sei. Mas se eu não soubesse segurar o tranco de ser só, estaria namorando por conveniência ou carência há muito tempo, mas isso ninguém vê. Ouvi muitas vezes a mesma coisa, mesmo argumento, uma fala oficial que me dá sono. Mas queria dizer dessa vez que se eu fosse mesmo pequena, indefesa e assustada, eu quem iria fugir. Nunca o fiz.

domingo, 28 de outubro de 2012

Limpeza da alma

Eu bebia para vomitar aos litros. Não escondia de ninguém, mas também não ficava pedindo atenção, querendo ser a rainha da gorfada, a mestre do “passar mal” de bêbada. Esse era meu plano, simples, eficaz e primitivo: vomitaria tudo. Os outros diziam que eu bebia para esquecer, que era refúgio, que eu estava tentando esconder tudo que eu sentia atrás de garrafas e mais garrafas de álcool. Todos estúpidos, não sabiam de nada. Na verdade eu não escondia, nem fugia de nada. Estava metida até a tampa no meio dos meus fracassos e decepções, lembrando sempre de cada uma das minhas tristezas e bebendo para botá-las para fora. Esse era o plano: vomitar tudo de ruim que estava guardado dentro de mim.

Eu me esvaziava de lembranças e sentimentos para ver se conseguia viver em paz. É como uma garota que enfia uma escova de dentes no fundo da garganta para não engordar depois do almoço. Nesses dias de limpeza pesada eu mandava embora as brigas. Eu as misturava com o produto de um desejo infinito de mijar a vida inteira, expelindo uma porção de crises de ciúme que ficaram em silêncio, cinismos que escondiam explosões de humor, mas que se resumiam a caras fechadas e sorrisos amarelos.
Ficava alucinada gritando uma porção de dores e tristezas. Berrava uma porção de coisas que eu deveria ter dito e não disse, uma porção de cosias que eu ouvi e não deveria ter ouvido, uma porção de coisas que eu vi e não deveria ter visto, uma porção de coisas que eu fiz e não deveria terem sido vistas por ninguém. Eu gritava os perdidos que eu dei. Gritava as vezes que fui traída. Gritava todos os dias em que fiquei sozinha pensando absurdos. Gritava as maiores frustrações do mundo. Depois eu começava a ficar sem voz, o corpo esquentava absurdos e eu suava. Suava litros, perdia água como quem abre as portas de uma barragem. Nessas eu suava as melhores coisas. Deixava sair pelos poros todas as vezes que eu disse que foi o melhor sexo da minha vida, que era o homem da minha vida, todas as vezes que eu dizia que seria pra sempre e expurgava todas as coisas que eu queria que tivessem sido reais.

Eu suava as risadas dela e via as gotas escorrerem, suava as viagens, suava os rostos, as caretas, as coisas que me faziam rir, as piadas e ia esquecendo de tudo. Evaporava cada coisa boa e ia ficando leve, perdendo passados e memórias de coisas que nunca mais iam se repetir. Ficava muito louca, com as pupilas parecendo bueiros abertos e as lágrimas se juntavam com as gotas de suor. Eu chorava, bem de vez em quando, uma porção de coisas sérias, como imagens de parentes que eu queria trazer para a minha própria família, comidas que eu nunca mais vou comer, sensações, texturas, cores e sons que eu nunca mais vou ouvir. Eu chorava porque perder lembranças boas exige coragem e eu sempre fui covarde pras dores do coração e da alma. Lavar a alma é dolorido, cansa, dá trabalho e cobra-se caro pelo serviço.

Quando estava tudo branco, como se fosse uma morte-viva, uma inconsciência planejada, eu me esquecia de lembrar de tudo que era de antes e me convencia de que o mundo era uma incerteza infinita, exceto por uma única coisa: “preciso me apaixonar por alguém”, e me jogava na cachaça outra vez.

domingo, 21 de outubro de 2012



A ansiedade é responsável pela maioria das vezes que a gente odeia o silêncio. Esperar a palavra de alguém, uma resposta, um simples “oi” faz o silêncio passar de pacífica sensação de paz a terrível sensação de desespero. O silêncio é como uma bandeira de rejeição que não tem cor, nem mastro, nem pano, mas está lá, nítida e imponente, para que você saiba que ele existe. Ele é uma entidade, não uma situação.

A falta de comunicação vai tão além da falta de som que é possível ficar em silêncio no lugar mais barulhento que se pode imaginar. Quantas vezes não me senti extremamente incomodada com o silêncio de alguém enquanto meus ouvidos ardiam agoniados com barulho demais. Existe a falta de som e o silêncio. E acredite: eles não são equivalentes!

Esperar algo de alguém, uma comunicação banal que seja, gera o silêncio. Estar em um lugar sem nenhum som, nenhum barulho, nenhum nada ainda pode ser extremamente ruidoso e barulhento. Os olhos falam mais alto que qualquer garganta! As palavras gritam mais que qualquer desespero e o toque, o gesto delicado, revela mais informações do que a mais longa das conversas. A expectativa de receber esse tipo de comunicação é que gera o silêncio, a falta de som, não.

O silêncio é aquela sensação estranha de quando você escreve um bilhete e, ao invés de responder, a pessoa simplesmente guarda o papel e continua fazendo o que estava fazendo antes. Ou quando você manda uma mensagem de celular que levou meia hora pra ter coragem de escrever e a resposta nunca vem. Ou até quando você vê a tela do computador mostrando o chat só com a sua frase vazia na tela branca e mais nada, nem um “fulano está digitando uma mensagem…” para te acalmar. O silêncio tira a calma de qualquer um!

Também fica essa sensação estranha quando a despedida com beijo na boca vira um abraço com uma bochecha encostando na outra, sem lábio, sem sentimento, sem quase nenhuma intimidade. Acontece quando você segura a mão de alguém e ela não segura de volta, simplesmente deixa a mão ali para você carregar. São faltas de respostas, de atitudes, que geram o silêncio.

Essa nossa necessidade de ter uma resposta, de esperar do outro uma atitude específica, faz com que a vida pareça mais injusta, menos amável, menos macia. De que adianta ter amor, dar amor, ser feliz, ser sincero se, a qualquer momento, a reciprocidade acaba e de repente o mundo não é mais tão feliz, nem tão amável, nem tão sincero. A vida parece uma brincadeira de mal gosto quando se espera de alguém uma resposta que não vem, ou vem errada, ou truncada, ou oposta.

É como se esforçar para conquistar algo que, mais dia menos dia, não vai dar em lugar algum. É o morrer na praia sonhando com a vida nova, a escalada ao cume que está sempre encoberto por nuvens e nunca revela a verdadeira vista de lá de cima. É a expectativa crua, daquela que simplesmente nasce da esperança de algo acontecer, sem planos a longo prazo, sem estratégia, só querer e precisar.

Quando se quer a resposta certa, o gesto específico, a situação exata, o tempo para de passar. A espera se torna eterna, tudo se torna chato e sem razão, como se fosse mais fácil dormir do que esperar. É o silêncio que nos deixa assim, e quem o alimenta é a ansiedade de esperar do outro exatamente o que nós oferecemos. Quando percebi isso tudo cheguei à conclusão de que o dinheiro que vai, geralmente é bem maior do que o troco que volta e, mesmo assim, o produto ainda vale a pena. Vale a pena o silêncio!