Tá, não é mais um estranho agora, mas eu gosto de chamá-lo
assim, ainda que seja só
nos meus pensamentos e nos meus textos. Fazia muito tempo que eu não me sentia tão bem com um desconhecido. Ele tinha
olhos profundos e um sorriso de quem ainda tem muita sede de
vida, embora já tenha vivido algumas tantas experiências
que o deram uma maturidade incomum. Tinha cheiro de homem,
e um sorriso de moleque que contrastava de uma forma hipnotizante. Foi
ele chegar, que eu comecei a ver poesia até no jeito que minha cadela corre atrás
do próprio rabo. Acho que isso foi um bom sinal, ou não. Alguns drinks a mais e
uma série de idéias bacanas para se pôr em prática com uma pessoa bacana. Cara,
como ele é bacana! Um labirinto de formas musculares que eu ficaria
medindo com a boca pelo resto da vida, se fosse possível.
Estava na esperança de que fosse outro cara sem acervo
intelectual, mais um membro da gangue das cantadas de porta
de boate, e então eu poderia deixá-lo na categoria dos deslizes com facilidade.
Doce engano. Tinha música saindo da sua boca e cada palavra, que
era seguida de um sorriso malandro demais, encarnava na minha alma como
se fosse um encaixe violento de peças de um quebra-cabeças, enfim sendo
resolvido. Senti todas as borboletas no estômago se trombarem, enquanto
voavam sem parar de tanta felicidade por ele ter tomado aquela iniciativa.
Aquela que toda mulherzinha fica esperando – na maioria das
vezes, inutilmente – que o cara tome, pra poderem dar continuidade numa
história que nem existe. A minha também não existe, mas eu nem ligo.
Tenho mostras de cuidado e atenção sem parar, e, embora esteja completamente confusa e sem saber o que fazer ou como isso
aconteceu, tô adorando
ser essa mulher comum! Que experimenta o guarda-roupa inteiro prá
poder ficar à altura de uma camiseta com
bermuda, que sente uma honra imensa simplesmente em
ser apresentada aos seus amigos. Enfim, tô feliz e não nego mesmo. E assumo a culpa, a culpa é do meu
estranho adorável, com cara de menino e jeito de macho, do
tipo que se faz inteiro e não precisa pedir atenção,
ele é digno de toda atenção do mundo e de todo carinho e de todos os
beijos, abraços e gemidos possíveis.
De tanto pensar sobre como a rainha do gelo chegou ao ponto de se
sujeitar à correr esse risco real e ameaçador de
se ferrar muito, acho que deu pani e não pensei mais, só
vivi, é. Vivi. E os dias ao lado dele foram incríveis ao ponto de
não caberem em palavras e, mesmo sabendo que todas as coisas (e pessoas) desse
mundo foram destinadas à mudança (o que pode não ser uma coisa boa), eu
estou plena em cada segundo. Hoje, me agarro apenas na certeza de que a
gente ainda vai se encontrar por aí...
Tomara.
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