Esses
caras não sabem nada sobre essas meninas. Não sabem porque escolheram não
saber, preferiram a segurança do raso, do simples, da opinião superficial
nascida de duas ou três cenas suspeitas que viram em festas, casadas com umas
fotos de ângulos depreciativos e mais uma meia dúzia de boatos que nunca
poderão ser comprovados. Uma porção de caras que olha pra essas meninas
sentindo a falsa segurança de saber exatamente quem são, o que pensam, como
erram, quais são seus desejos, suas fraquezas e seus pontos fortes. Acreditam
serem superiores por possuírem informações particulares sobre elas, mas que, na
verdade, não dizem nada sobre ninguém.
Esses caras não
sabem nada sobre essas meninas. Têm opiniões tão distorcidas que, em alguns
comentários aleatórios que ouvi, tive dúvidas sobre quem estavam falando. Às
vezes penso que eles se esquecem que elas saem para a rua, fazem o que quiserem
fazer, mas depois voltam para casa. Uma casa normal, com mãe, com pai, com
irmão, com beijinho na careca do vovô no final de semana, com lasanha, com
cachorro, com viagem de ano novo, com um monte de coisa de gente comum. Tem
cara que pensa que essas meninas nasceram dentro de uma balada, só vivem de
festa, funk, black e goró. Porra, que absurdo pensar que todo mundo é tão vazio
quanto eles são.
Esses caras não
sabem nada sobre essas meninas. Isso acontece porque o ciclo de relacionamento
com elas é mínimo, repetitivo e superficial. Eles as conhecem e, de cara, se
interessam no caminho para entrarem debaixo de suas saias. Depois eles se
sentem frustrados diante das negativas e começam a julgá-las por suas roupas,
porque dançam, porque bebem, porque ficam bebaças ou porque fumam demais. Não
importa, tudo será defeito, mesmo que não seja. Depois, diante do “foda-se” pra
esse monte de absurdos, eles começam a criar histórias, verdadeiros mitos
incríveis sobre coisas que elas supostamente fizeram, como fizeram, com quem
fizeram e, claro, sempre tem muito sexo e pouca testemunha nesses depoimentos.
Se fizeram ou não, ninguém sabe, mas caso seja verdade, nunca foi feito com
quem espalhou a história.
Esses caras não
sabem nada sobre essas meninas. E não sabem mesmo! Pica nenhuma! Nem o nome,
porque apelido hoje vale mais do que R.G. Não sabem porque não conseguem
conversar, não têm assunto que prenda uma mulher sentada por mais de cinco
minutos. É sempre a mesma merda, com os mesmos históricos, as mesmas piadas, o
mesmo bla bla bla eterno sobre as mesmas pessoas. Esses caras não perguntam
nada inteligente, não falam da faculdade ou do emprego delas (porque talvez nem
pensem que elas têm algum trabalho), não perguntam sobre gostos pessoais, não
emplacam alguma conversa com reflexão, nem que seja sobre um filme que passou
esses dias na TV. Eles simplesmente não se interessam por elas como pessoa, só
como diversão, como enfeite, como paisagem. Elas são bem mais que isso, pode
apostar!
Esses caras não
sabem nada sobre essas meninas. Eles não fazem ideia de quanto elas estudam,
trabalham e se esforçam para crescerem profissionalmente. Eles nem imaginam que
debaixo daquelas roupas provocantes, daqueles sorrisos espalhafatosos, das
danças sensuais, existe uma mulher que também quer ter filhos, também quer ter
uma família e também quer alguém que queira abraçá-las antes de dormir. Elas
também gostam de chocolates e flores, também gostam de conversar sobre
investimentos, dinheiro, carreira, planos pro futuro e até futebol, por que
não? Eles não pensam que essas meninas têm sentimentos e que deve ser foda
saber que um monte de gente fala absurdos falsos sobre elas. Essas meninas são
mais profundas do que tudo isso.
Esses caras não sabem nada sobre essas meninas. Não
sabem o quanto elas podem ser amáveis, românticas, dóceis e meigas se forem tratadas como merecem. Eles não sabem como podem ser sensuais dormindo, como pode ser divertido passar a tarde na sala de casa comendo besteira e vendo os programas ruins na televisão ao lado delas. Eles não sabem sobre suas preferências, nenhuma delas, mas poderiam se surpreender caso começassem a aprender mais. Eles não sabem que elas sabem de cinema, que ouvem samba de roda, que têm tradições familiares sólidas, que são vegetarianas, que não têm pai, que têm irmão mais novo, que têm uma porção de medos bobos que jamais aparecem. Elas são tão incríveis, cheias de segredos e virtudes, que quase não dá pra acreditar. Elas sabem de seus próprios valores, eles não.
Esses caras não sabem nada sobre essas meninas e não dão o mínimo valor para as pérolas e diamantes que têm diante de si. Se perdem admirados em uma figura atraente e esquecem de lembrar que todo mundo é um universo a ser explorado. Esquecem que dançar no pole dance não deixa ninguém mais burro ou menos interessante. Esquecem que beber mais que um homem não deixa mulher nenhuma menos bonita e nem sem valor. Esquecem que não sabem de nada pensando saberem tudo e que esse tipo de preconceito nunca dá certo. Esses caras vão saber alguma coisa sobre essas meninas quando um homem de verdade sair da caixa, passar por cima do monte de merdas “que o povo conta” e mergulhar nesse monte de mini universos fascinantes. Eles vão saber quando um amigo contar que essas meninas são incríveis, que estão felizes ao lado delas e que, mais cedo ou mais tarde, iria aparecer a pessoa certa. Elas aparecem certas para os caras certos!
Mas esses caras não sabem nada sobre essas meninas e isso é um problema só deles.

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